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Profissionais que driblaram o preconceito e ocupam cargos de liderança

Conheça as histórias de sucesso de profissionais com deficiência (eles representam menos de 1% desse universo)

“Foi um choque, mas optei por enfrentar as dificuldades e vencer.” (ROGÉRIO PALLATTA/Veja SP)


“Você tem de ter uma atitude positiva e tirar o melhor da situação na qual se encontra.” A frase do físico britânico Stephen Hawking — morto em 2018 após 55 anos de convívio com a esclerose lateral amiotrófica (ELA), doença degenerativa incurável — tornou-se um ensinamento de vida para o publicitário e professor Danillo Casanova, 36. Desde 2013 ele sofre de uma doença semelhante e também irreversível, a esclerose múltipla, que debilita os nervos. Mas decidiu ir contra as estatísticas e prosseguir no mercado de trabalho, apesar das inúmeras dificuldades: da expressão de piedade — e às vezes até de repulsa — dos gestores das empresas na hora da entrevista à locomoção pela cidade. Hoje, possui um cargo estratégico em uma multinacional e viu seu salário triplicar nos últimos oito anos.


Danillo é um caso raro. Os dados estampam uma situação triste enfrentada pelos 810 000 moradores da capital que têm limitações graves (cegos, paraplégicos, tetraplégicos e com distúrbios mentais avançados). De acordo com a Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência, cerca de 70% teriam condições de arrumar um emprego, mas só 42 800 contam com carteira assinada, 120 200 estão desempregados e o restante vive na informalidade. O artigo 93 da Lei Federal nº 8213, a conhecida Lei das Cotas, obriga empresas com 100 ou mais funcionários a reservar de 2% a 5% de seu quadro a esse público. As companhias declaram disponibilizar 37% das vagas de liderança — de gerentes e diretores — para pessoas com deficiências físicas (PcDs), segundo pesquisa da Rede Empresarial de Inclusão Social. “Mas na prática menos de 1% ocupa esses cargos”, constata Ivone Santana, secretária executiva do órgão. Os recrutadores dão a desculpa de que muitos não são preparados e citam o censo da educação superior de 2016, que mostra os PcDs com uma fatia de apenas 0,45% do total de matrículas. “Mas não é bem assim, pois quase 70% do meu banco de 200 000 nomes tem pelo menos ensino superior completo”, diz Andrea Schwarz, CEO da iigual, uma espécie de agência de empregos especializada em inclusão.



Conheça a história desse e de outros paulistanos que conseguiram vencer essa exigente corrida de obstáculos


Líder campeão

Seis meses atrás, Thiago Bello, 32, coordenador financeiro da Serasa Experian, começou a chefiar um time de nove pessoas no escritório de São Carlos, a 232 quilômetros da capital. “Sou um líder que gosta de motivar a equipe. Sonho chegar à diretoria”, afirma. Nessa conquista, houve só dois contratempos: a busca pelo apartamento na nova cidade (na maioria, ele nem sequer conseguia cruzar a porta com sua cadeira de rodas) e o remanejamento de sua namorada, a administradora Hemanuele Oliveira. “Assim que me mudei, iniciamos o relacionamento e não pudemos trabalhar mais juntos.” Bello entrou na Serasa há quinze anos, como estagiário em uma vaga de cotas para PcD, sigla corporativa que significa Pessoa com Deficiência. “Passei meses mandando currículos e percebi que muitas empresas só disponibilizam vagas para candidatos com problemas leves”, declara o economista, que se tornou paraplégico aos 10 anos após ser atingido por uma bala perdida ao deixar a escolinha de futebol, perto de Diadema, onde vivia. “Foi um choque, mas optei por enfrentar as dificuldades e vencer.” Do sonho de se tornar o novo Ronaldo Fenômeno, Bello aprendeu a jogar tênis de mesa paralímpico na Associação de Assistência à Criança com Deficiência (AACD). Foi campeão paulista e brasileiro na categoria entre 2001 e 2004. Quis procurar emprego logo no 1º ano da faculdade de economia no Mackenzie e passava em média oito horas diárias entre envio de currículos e entrevistas. Entrou na Serasa por cotas, mas recebeu quatro promoções por mérito e seu salário aumentou dez vezes desde então. O segredo do sucesso? “Não me deixo abater e me esforço. Sempre disse aos meus chefes: ‘Passem a bola para mim que marco o gol’.”


“Quero seguir no mundo corporativo até onde a doença permitir, e depois amaria dar palestras para inspirar pessoas”, planeja (JOÃO BERTHOLINI/Veja SP)

Susto no RH

Em seus quase quinze anos de carreira, o publicitário Danillo Casanova, 36, jamais pleiteou uma vaga na área de PcD. Ele descobriu que sofria de esclerose múltipla (doença degenerativa incurável) aos 28 anos, quando ainda era novato na profissão, e a três semanas do casamento com a securitária Rosemeire Casanova, 36. “Ao saber que minha dificuldade de mover meus braços só iria piorar e que em questão de tempo eu estaria em uma cadeira de rodas, minha reação foi investigar tudo a respeito da enfermidade e traçar uma rota sobre como seria a melhor forma de viver com ela”, conta. Na época, ele trabalhava como analista em uma empresa de marketing digital e não se constrangeu com as inúmeras perguntas inusitadas dos colegas e gestores, na linha do “isso pega?”. Apesar das dificuldades crescentes, especialmente no lado direito do corpo, Casanova seguiu em frente. Meses depois, por mérito, recebeu uma promoção. Nos últimos oito anos, trocou de emprego cinco vezes, sempre galgando cargos e salários maiores. “Ao me verem mancando como um zumbi do The Walking Dead, as funcionárias do RH se assustavam inicialmente, ma