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Coronavírus – Mais do que nunca, o papel de liderança é imprescindível para a travessia desta crise




Nenhum inverno dura para sempre, nenhuma primavera pula sua vez


O mundo mudou. Com a pandemia do novo Coronavírus (Covid-19) que, acredita-se, teve a sua origem em morcegos e cuja transmissão para o ser humano foi um reflexo da sua intervenção desmedida no meio ambiente, não apenas milhares de vidas e a economia global foram postas em cheque, mas um novo capítulo na história da humanidade tem início.


Como humanidade, estamos adoecidos há um bom tempo mas, ocupados que estávamos cuidando das tarefas diárias, com a correria para cumprir automaticamente todos os compromissos, não conseguíamos dar atenção aos sintomas de nossa principal patologia social contemporânea: a indiferença ao sofrimento alheio. Mais do que isso, no meio da luta pela suposta melhoria da própria vida e de sua família, algumas pessoas que conquistaram algo a mais que outras, ainda acrescentavam outros obstáculos, atrasando mais a trajetória de quem já estava em situação vulnerável, adicionando ainda o preconceito, discriminação e exclusão. Este comportamento pode ser notado em exemplo individuais, corporativos e estatais. Governos deixando de cumprir a sua razão de existir, que é a de garantir a dignidade a todos, priorizando o bem estar coletivo e garantindo recursos básico para isso: boa saúde, educação, habitação, para começar.


Mais do que nunca, a união, a solidariedade e responsabilidade por si e para com o próximo se fazem necessárias nessa reflexão e em nossas ações, inclusive no apoio às pessoas mais vulneráveis à essa crise, fisicamente falando – os chamados grupos de risco. São pessoas com 60 anos de idade ou mais, pessoas com algumas condições patológicas ou congênitas. Além destes, sofrem ainda mais, pois questões anteriores à pandemia, as mulheres, pessoas com deficiência, pessoas negras, pessoas LGBT+, indígenas, quilombolas, pessoas em situação de rua, imigrantes e refugiados.


Enquanto todo o mundo entra em quarentena e se mobiliza para combater o vírus, alguns países com mais eficiência, outros com menos, sistemas de saúde entram em ação com força total, ou com toda a força de que são capazes, pondo médicos e profissionais de saúde na linha de frente. Comércio e serviços públicos são paralisados quase que por completo, permanecendo em funcionamento apenas aqueles tidos como essenciais. Enquanto países fecham suas entradas, e há uma queda de consumo jamais vivida, a demanda por medicamentos, máscaras, respiradores e outros equipamentos colocam boa parte do mundo em uma fila de espera.


Ao mesmo tempo, o isolamento social imposto pela quarentena convida cada ser humano, para além de uma higienização constante - na qual a água, o sabão e o álcool gel ganharam valor primordial -, a repensar seu estilo de vida, seus ideais, relações familiares e de trabalho, bem como o conceito de proximidade e do convívio em sociedade em tempos nos quais, graças à tecnologia, pode-se estar tão perto e, ao mesmo tempo, tão longe de alguém.


No Brasil não é diferente. Diversas ações afirmativas em apoio a quem não pode parar de trabalhar ou não tem trabalho, a quem carece de cuidado, atenção, acesso à informação ou sequer tem uma casa na qual se abrigar estão em andamento, sejam iniciativas de pessoas, grupos ou instituições, com algumas das quais você também pode contribuir.


No país, no entanto, além do grupo de risco, a metade da população brasileira encontra-se em vulnerabilidade maior, pois está entre as pessoas de baixa renda: 13 milhões de pessoas em situação de miséria, mais outros 50 milhões que são contratados formalmente e que recebem até um salário mínimo. Grandes famílias concentrados em moradias de um ou dois cômodos, geralmente sem condições mínimas de saneamento e abastecimento de água, sem espaço para isolamento, e precisando trabalhar, é um contingente que agora não pode mais ser ignorado.


Pessoas com Deficiência


Entre as pessoas com deficiência, existem aquelas que, devido a sequelas específicas, entram no chamado grupo de risco, ou seja, ficam mais vulneráveis ao Coronavírus. É o caso de pessoas com restrições respiratórias, com dificuldades de comunicação, com condições autoimunes, doenças associadas como Diabetes, hipertensão arterial, doenças do coração, pulmão, rim e doenças neurológicas.


Nesses quadros, são necessários cuidados específicos, como a atenção redobrada na higienização dessas pessoas e nos equipamentos utilizados por elas. No dia 17 de março, a Organização das Nações Unidas (ONU) lançou um alerta mundial relativo à atenção que se faz necessária ao segmento nessa pandemia. O documento chama a atenção para questões que vão desde campanhas de prevenção em formatos acessíveis – com interpretação na Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) para pessoas surdas e com o recurso de audiodescrição para pessoas com deficiência visual, por exemplo – até o abandono de pessoas que precisam de apoio para comer, se vestir ou tomar banho.


Falta de dados dificulta o atendimento


Em combate a tal cenário temos iniciativas nacionais como a do Instituto Mara Gabrilli, que está fazendo um levantamento das necessidades das pessoas com deficiência no país durante a pandemia. Quanto mais pessoas preencherem o formulário disponível online, maior será a abrangência do levantamento e, a partir dele, o instituto pretende acionar o poder público.

Acesse o formulário em: https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSfRvokjhgV_pojOretztnojsSB_zJ-WZIRVmRltRjgc5wlbdg/viewform


Outra ação direcionada às pessoas com deficiência é da ASID Brasil (Ação Social para Igualdade das Diferenças). A organização identificou 326 famílias de pessoas com deficiência diretamente impactadas pelo Covid-19, cadastradas em 172 instituições de 6 Estados brasileiros. São famílias em situação de extrema miserabilidade, que precisam de recursos para obter itens de alimentação, higiene e medicamentos.


A associação lançou uma campanha de doação online. Saiba mais em: https://asidbrasil.colabore.org/juntospelainclusao/single_step


Exemplos de Liderança


Um exemplo é a luta de Gilson Rodrigues, 35 anos, presidente da União, a associação dos moradores de Paraisópolis, e do G10, grupo que reúne as 10 maiores favelas do Brasil. Desde que tomou conhecimento dos primeiros casos, ele tenta frear o avanço da Covid-19 na favela com 100 mil habitantes da capital paulista. Criado na rua catando cobre e latinhas, Gilson foi para a escola por meio de um projeto de uma seguradora e, destacando-se, assumiu a presidência do grêmio estudantil. Tempos depois, foi convidado a liderar a a associação de Paraisópolis, posto que ocupa há dez anos. Pensava em deixar a função quando o Coronavírus chegou.


Em entrevista para O Estado de S. Paulo, na qual narra a sua impressionante história de vida (link abaixo), Gilson fala do enfrentamento contra o vírus em uma realidade na qual dez, doze, catorze pessoas vivem juntas em cômodos muito pequenos e para as quais o isolamento, eficaz no combate ao contágio, não é possível. Nas duas últimas semanas, Gilson reuniu 840 moradores, que se tornaram presidentes e vice-presidentes de rua. Cada dupla cuida de 50 famílias, com a ação abrangendo as 21 mil famílias da região. Cada presidente tem responsabilidades diárias, cujas mais importantes são: manter todos em casa, distribuir doações que, segundo Gilson, chegam em número insuficiente e, principalmente, acionar as ambulâncias em caso de suspeita de contágio – três foram alugadas pelo presidente, que também apela por ajuda para arcar com esse custo.


Confira a entrevista de Gilson Rodrigues para O Estado de S. Paulo em: https://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,gilson-rodrigues-tenta-impedir-que-o-coronavirus-devaste-paraisopolis,70003252692


Casa Florescer


No contexto do apoio a pessoas que vivem à margem social e, na pandemia do Covid-19, ficam ainda mais vulneráveis, destacam-se trabalhos como o da Casa Florescer, que acolhe mulheres trans e travestis em regime de 24h. Na Casa, essas pessoas recebem atendimento social e psicológico. A iniciativa também está sempre aberta a contribuições voluntárias de profissionais aptos a ministrar oficinas temáticas, com orientações específicas.


Saiba mais e confira os contatos da Casa Florescer em: https://voluntarios.com.br/entidade/9856


Poder Público Federal demora em tomar medidas


Além da confusão causada pelo Presidente da República, Jair Bolsonaro, ao dar informações e direcionamentos contraditório durante as três primeiras semanas da quarentena recomendada pela OMS, a lentidão em adotar medidas emergenciais e de reforço aos hospitais e aos serviços essenciais acabou por gerar uma crise diplomática entre governadores que se posicionaram firmemente em favor da preservação das saúde dos cidadãos. Empresas, instituições e corporações também se uniram e realizaram doações de materiais de prevenção e recursos para os profissionais de saúde.