Dia da visibilidade trans: o que você faz para mudar a realidade das pessoas trans e travestis

Há 18 anos, o Dia da Visibilidade Trans entrava no calendário nacional, impedindo que o T da sigla LGBTQIA+ fosse esquecido. Se você é uma pessoa cisgênero e acha que não ter preconceito já é o bastante, não deixe de ler este artigo.



Descrição da imagem no recurso de texto alternativo.


Por Fátima El Kadri


Foi no dia 29 de janeiro de 2004 que um grupo de pessoas trans e travestis se reuniu no Congresso Nacional para o lançamento da campanha “Travesti e respeito”, promovida pelo Ministério da Saúde.


Essa população sempre foi vítima de maior preconceito, desigualdades sociais e, sobretudo violência de todos os tipos, e isso se revela em diversas formas e níveis. Como exemplos, podemos citar:


  • Falta de políticas públicas e leis que garantam seus direitos;

  • Dificuldade de acesso à educação e ao mercado de trabalho,

  • Assédio moral que sofrem todos os dias, com piadinhas de mau gosto e xingamentos;

  • Agressões físicas e assassinatos.


De alguns anos para cá — mais especificamente a partir dos anos 2000 — foram criadas algumas leis visando a garantia dos direitos, tais como mudança de nome civil sem cirurgia e a permissão para ser reconhecido pela sua identidade social, independentemente do gênero biloógico, acesso à cirurgia de mudança de sexo pelo SUS (Sistema Único de Saúde), equiparação da transfobia ao crime de racismo, entre outras conquistas.


Um outro dado positivo é que, atualmente, somos o país que mais elege candidatos trans e travestis. Uma pesquisa da FGV/SP divulgada pela Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) aponta que, em 2016, tivemos 80 candidatos trans e 8 foram eleitos. Na última eleição, em 2020, o número de candidatos saltou para 300 e 30 foram eleitos para cargos públicos, ou seja, 10%.


Porém, ainda hoje, as pessoas trans e travestis vivem em uma situação de constante insegurança e medo, especialmente aqui no Brasil.


“Existe uma lacuna gigantesca entre as decisões que vem dando ganho a população trans e as garantias fundamentais desses direitos. A ausência de dados sobre violência LGBTIfóbica pelo estado, dificuldade de inclusão de questões LGBTQIA+ no censo demográfico, o apagão de informações de fontes como o SINAN e o DISQUE 100 na era Bolsanaro/Damares, a política externa altamente transfóbica e cissexista do Itamaraty e do próprio Ministério da Família, Mulher e Direitos Humanos, as tentativas de aparelhamento do STF com ministros subservientes ao fascismo e autoritarismo do governo federal, as violências e violações de direitos humanos de nossa população, a falta de ações do estado para a garantia de direitos”.


Tal afirmação é do Dossiê de Assassinatos e Violências contra Travestis e Transexuais Brasileiras de 2022, elaborado por Bruna Benevides e divulgado pela Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais).


Segundo o documento, em 2021, houve pelo menos 140 assassinatos de pessoas trans, sendo 135 travestis e mulheres transexuais e 5 homens trans e pessoas transmasculinas, o que mantém o nosso país em 1º lugar na lista dos que mais matam pessoas trans e travestis no planeta.


O projeto de pesquisa Trans Murder Monitoring, citado no dossiê, informa que, a cada 10 assassinatos de pessoas trans no mundo, 4 foram no Brasil.



Como podemos sair desse ciclo de violência e deixar de ser o país que mais mata transgêneros e travestis no mundo?


Organizações como a Antra e ativistas da causa LGBTQIA+ afirmam que ainda é preciso fazer muito para alcançar a verdadeira igualdade de gênero, com direitos garantidos e liberdade.


Ampliar políticas públicas e leis que garantam a segurança da população T é importante, mais do que isso, é necessário educar as pessoas hétero e cis — em especial as crianças —, para que elas se conscientizem sobre o que é um comportamento homofóbico e transfóbico já enraizado na nossa sociedade, e parem de reproduzí-lo.


O que isso quer dizer? Que a transfobia, assim como o racismo, é estrutural. A maioria das pessoas diz não ter preconceito, mas já disse algo ou teve alguma atitude transfóbica.


Reflexão: O que você está fazendo para acabar com a transfobia?

Sabemos que a internet é um espaço plural, que permite a liberdade de expressão para todas as pessoas, bem como a denúncia das atrocidades cometidas contra as minorias.


Nas redes sociais, não é raro ver casos de assassinato, estupro e espancamento contra pessoas trans, sendo que, na maior parte deles, as denúncias não são sequer averiguadas.

Nesse sentido, devemos refletir sobre qual a responsabilidade da Cisgeneridade na violência contra pessoas trans?


Esse é o título de um artigo escrito também por Bruna Benevides, que é transexual, Sargenta da Marinha e voz fundamental na luta de transgêneros e travestis no Brasil.


Ela inicia o texto dizendo:


“Toda vez que vemos casos de violência contra pessoas trans exposto na rede social, observamos uma constante marcação de instituições e pessoas trans a fim de que sejam acionadas para tomar alguma providência, como se compartilhar ou marcar alguém resolvesse a transfobia.


Isso sempre me chama atenção porque fica parecendo que marcar alguém sem tomar qualquer atitude concreta ou compromissada com o enfrentamento da transfobia seria algum tipo de ajuda, quando na verdade nos parece mais com a cisgeneridade se omitindo.

O compartilhamento e a espetacularização da violência serve ao propósito de nos lembrar diariamente que podemos ser as próximas. Nós, vocês não! Mas também pra dizer o quanto vocês naturalizaram a violência contra pessoas trans”.

Em outro trecho, ela destaca : “Há quanto tempo se sabe que o Brasil é o país que mais assassina pessoas trans do mundo, tem índices altíssimos de estupro, é o quinto em feminicídio etc.”(...)


Vocês são muito emocionados e sempre que aparece esse tipo de violência vocês estão prontos para nos acionar. Nessa hora, vocês não tem lugar de falar para ajudar. Estão sempre muito emocionados com seus gatilhos, mas nunca disponíveis para ajudar.


O artigo é uma denúncia, um desabafo e também uma provocação de Bruna: quando acontece uma desgraça com pessoas trans e travestis, todo mundo comenta e viraliza, mas quem, de fato, está disposto a fazer algo para mudar a realidade delas? Vale ler o texto completo, disponível aqui.


É verdade que transgêneros e travestis nunca tiveram tanto espaço como agora. Elas estão presentes na internet, na TV, na política, na música, em reality shows e atuando nas novelas. Mas tudo isso só é possível hoje por causa da resistência de uma minoria que nunca parou de lutar. E que não poderá parar nunca.


A violência contra essa população não terá fim enquanto não houver uma mudança de mentalidade e de cultura em relação às pessoas trans em todas as instâncias. Naturalizar ofensas e crimes bárbaros nunca será uma opção.


É com muito orgulho que nós, do Instituto Modo Parités, estamos fazendo nossa parte, com a divulgação de informações relevantes e o desenvolvimento de programas de diversidade focados na inclusão de pessoas transgêneras. Não é de hoje que a gente acredita que #vidastransimportam.


Acesse a íntegra do Dossiê de Assassinatos e Violências contra Travestis e Transexuais 2022.





Posts Em Destaque
Posts Recentes
Arquivo
Procurar por tags
Siga
  • Facebook Basic Square
  • Twitter Basic Square
  • Google+ Basic Square